As Teorias de Summer: Aqui em meu jardim, existe um poço.



Cuidar do meu próprio jardim é algo novo pra mim. Sim, eu sempre reguei as plantas; e se por um acaso alguma começasse a murchar, eu apenas arrancava as mudas e não permitia que a probrezinha continuasse sofrendo. Mas dar a devida atenção; preparar a terra; arrancar as ervas daninhas; regar; conversar com elas e admirá-las, até mesmo as mais singelas, é uma tarefa que precisa ser trabalhada diariamente. Embora pareça simples, é mais árdua e dolorosa do que pensam.

Existem dias azuis, dias nos quais eu acordo escutando o canto dos pássaros - posso ver os raios do sol atravessarem  as minhas cortinas, e sinto eles delicadamente beijarem o canto direito da minha bochecha. Em momentos assim, é fácil ver toda a beleza do simples jardim que me rodeia.
Por um tempo, me considerei uma especialista em jardins, mas isso sem realmente conhecer suas profundezas. Acontece que essa parte secreta só é revelada nos dias cinzentos; nos momentos mais conturbados.

Certo dia, após me recuperar parcialmente de alguns hematomas da alma, percebi que nada seria resolvido ou ficaria melhor se eu continuasse em minha cama. Decidi juntar alguns miligramas de força que eu possuía; vesti uma camiseta e o meu jeans surrado, e fui para o jardim. Ele estava um caos, não tinha me dado conta do quanto a grama havia crescido. Arbustos grossos e com alguns espinhos sufocavam as plantas que tinham feito tanto esforço para desabrochar.
Me senti culpada por ter permitido que o lugar que eu mais zelava estivesse naquele estado deplorável - Aquele jardim era o mais fidedigno reflexo da minha alma. Nele eu podia ler exatamente como eu me sentia.
Então decidi que melhor a se fazer - e com urgência -, era arrumá-lo um pouco. Afinal, não era justo deixar um lugar tão precioso naquele estado.
Enrolei as mangas da minha camisa e num instante, fui buscar e voltei com o material de jardinagem.

À alguns passos de onde eu estava, havia um arbusto, e através das plantas, um pequeno buraco, como se as folhas tivessem desviado o caminho de propósito. Quando me aproximei, enrosquei o meu pé em algo indecifrável, e cai bruscamente em uma espécie de poço.
Meus cotovelos e joelhos ardiam, e eu não pude conter minhas lágrimas. A queda foi dolorosa, mas nem chegou perto de uma das piores. Ainda assim, eu chorei feito uma criança. Talvez aquele momento fosse necessário - uma espécie de cura, ou uma pequena parte dela. 
Não sei dizer ao certo quanto tempo fiquei ali, mas notei que já estava anoitecendo e o céu estava mais limpo do que nunca. Notei também que as estrelas salpicavam o firmamento em uma espécie de dança magnifica que só poderia existir em outra galáxia. Eu nunca tinha visto algo tão bonito. Ou ainda, quem sabe, talvez eu nunca tivesse parado e observado o fenômeno da maneira correta. E então, naquele momento, eu me senti parte de algo muito maior. Era como se a minha alma estivesse mais leve e ao mesmo tempo mais forte.

No dia seguinte, pedi perdão ao meu jardim; o deixei bem cuidado e bonito novamente, do jeito que sempre deveria ter sido. Arranquei o arbusto no qual havia tropeçado no dia anterior, mas não cobri aquele grande buraco - apenas plantei algumas flores ao redor dele, pois entendi e quis deixar ali como lembrança de que às vezes, os arbustos precisam crescer e nós precisamos estar no fundo do poço, para enxergar as pequenas grandiosas coisas da vida.


Sobre mudanças, recomeços e marés.

Imagem de green and suitcase

E hoje eu senti uma baita vontade de voltar pra casa, isso mesmo, casa. Será que é possível habitar lugares e não se sentir abrigado por eles?. É uma sensação desconfortável, ter que voltar para um recinto que de fato você não pertence.

Eu mudei, em menos de um mês, eu mudei e muito. Mudei de bairro, tenho um novo endereço, mudei a rotina, me mudei daqui, mudei de mim. Mas hoje, exatamente hoje eu senti saudade e daquelas boas em que a gente fica com o estômago revirado e bate aquela sensação gelada de euforia e ansiedade, pra voltar a um lugar onde você pode chamar de lar. 
Existem inúmeras habitações,  lar não é apenas um recinto,  é onde  podemos ser inteiramente e genuinamente nós mesmos. 

E cá estou eu, voltando pra casa, e esse sentimento é muito bom! É como se todo o universo estivesse me abraçando e eu finalmente me sentisse parte de algo maior, pois todos nós fazemos parte de algo que no momento não vemos, mas podemos senti-lo.  
Sempre fui uma pessoa contida e a melhor forma que encontrei de me expressar foi através das palavras, confesso que dediquei muito tempo e esforço em muitas áreas, mas eu voltei pra mim e preciso cuidar do meu jardim,pois só assim ele crescerá e irá desabrochar. 
Acredito que a vida, assim como as palavras são como marés, elas não podem ser contidas e as vezes estão baixas, mas precisamos de momentos assim pra que possamos voltar com força maior e assim desaguarmos grandiosamente.



Sobre calos, aventuras e um ano que se finda.

Imagem de light, indie, and photography
É, preciso confessar... me sinto estranha escrevendo sobre um ano conturbado e meio maluco, parece que estive 84 anos dentro de um só, passei por maus bocados e cheguei a pensar que não iria conseguir chegar onde  cheguei, mas olha só como é a vida... estou aqui, com alguns calos, mas ainda estou aqui. Acredito que tenha sido dias pesados pra muitos, e ouso dizer que existiram momentos em que pensamos em desistir, em que procuramos desesperadamente um botão "reiniciar" pra ver se as coisas melhoravam um pouquinho, mas andei pensando com meus botões; Não reclamamos todos os anos? Das coisas que não aconteceram, das chances que deixamos passar, das pessoas que nos deixaram ou das que nós deixamos, é um ciclo, fazemos isso por que somos bons nisso, por que é fácil.

 É fácil ver o lado ruim das coisas, ter a quem culpar, por isso a vida é um desafio diário, pois é uma busca constante por um motivo maior, algo que nos faça acreditar que a vida vale a pena e esquecemos, que o sentido pra tudo isso está dentro de nós mesmos. Da só uma olhada, você é um sobrevivente, e não pode negar isso. 
 Eu sei, eu sei, a sociedade vai sempre querer  te mostrar o contrário, mas não deixe que isso torne a sua  verdade.  

2016 não foi nada como eu esperava e sabe... que bom! precisei aprender que apesar do meu tempo e esforço, certas coisas não dependem de mim e o que tiver que ser, simplesmente será.  Não tem como planejar os dias, temos que fazer o nosso melhor,  sendo o melhor que podemos ser, com o que temos, pois quando as coisas bonitas chegarem, saberemos apreciá-la.
Me sinto aliviada por esse ano estar chegando ao fim, aliviada e agradecida por ter perdido algumas coisas mas ter adquiridos outros bens valiosos. Não sei o que 2017 me reserva, mas seja como for estarei de pé e com a esperança de que as coisas podem ser doces, talvez um pouco pesadas, mas surpreendentemente doces. 


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